O Português é realmente a língua mais difícil do mundo?

Ao trabalhar como professora de idiomas ou tradutora (principalmente de origem estrangeira), ouvimos muitas vezes de nossos alunos ou clientes que o português é realmente muito difícil de aprender, a língua mais difícil do mundo. Isso é mesmo verdade?
Para responder essa pergunta, primeiro devemos pensar no motivo de as pessoas expressarem essa opinião tão comum.

Mesmo os brasileiros mais cultos não seguem as regras formais da gramática o tempo todo quando falam, e as vezes cometem erros quando escrevem (nós, da Superior, somos culpadas desse “mal” também!). A população em geral costuma se desviar muito da gramática que estudamos na escola e tem bastante dificuldade em se expressar de forma escrita seguindo todas as regras. Por isso, o raciocínio de todos que acreditam que o português é especialmente difícil é “se a população nativa do país fala português errado, então a língua deve ser muito difícil mesmo!!!”

Existem línguas realmente mais difíceis?

Na realidade, exceto pelo caso super específico do javanês, um idioma raramente é mais difícil de aprender do que outras línguas. O nível de dificuldade que qualquer pessoa vai ter para aprender um idioma novo depende, por exemplo, do repertório de idiomas que a pessoa já possui quando começa a aprender a língua nova. Alguém que já fala espanhol pode aprender português bastante rapidamente e sem grandes dificuldades, porque os idiomas são bastante semelhantes tanto em estrutura como em vocabulário. Já um falante de chinês provavelmente vai achar português bastante difícil, pois não há tantas semelhanças entre os dois idiomas que permitam que o aluno trace paralelos pra facilitar sua compreensão. Isso significa que falantes de idiomas diferentes vão encontrar dificuldades diferentes para aprender um novo idioma.

 

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Então se o português não é particularmente difícil, por que os falantes nativos têm tanta dificuldade em seguir as regras que aprendemos na escola?

Há linguistas que acreditam que o que acontece no português do Brasil é um fenômeno chamado diglossia. Diglossia ocorre quando os habitantes de uma região falam mais de um idioma e uma dessas línguas tem, por algum motivo, um status mais baixo que a outra. Isso ocorre, por exemplo, em alguns países da África que usam línguas europeias em assuntos oficiais, documentos e instituições de ensino enquanto no dia-a-dia, os habitantes se comunicam em idiomas locais bastante diferentes da língua usada oficialmente. Diglossa também se aplica em situações em que duas versões do mesmo idioma (ou seja, dois dialetos) são usadas por uma população em situações diferentes. Um exemplo famoso disso é no Haiti, onde se falam francês “padronizado” em situações formais e francês crioulo no cotidiano.

Isso não está tão longe assim do que ocorre no Brasil. A gramática que usamos no nosso dia a dia para nos comunicarmos é bastante diferente daquela que usamos quando escrevemos textos ou fazemos uma apresentação profissional ou acadêmica. Seria muito forçado considerar isso um caso de diglossia, em que tem duas versões de português?

Na linguagem cotidiana, por exemplo, cortamos palavras, ignoramos plurais, usamos verbos auxiliares ao invés de alguns tempos verbais entre outras “falhas” do português formal. (Mas é importante se perguntar: se todo mundo fala assim, é uma falha?) Quer exemplos que usamos o tempo todo sem pensar que, apesar de soarem perfeitamente corretos, não são o que a sua professora ensinou na sexta série? Quantas vezes usamos “vou falar” e quantas vezes usamos “falarei” como futuro? E o pretérito mais-que-perfeito, ou “eu falara”? Vamos conversar também sobre o condicional “falaria”? Qualquer pessoa que conjuguasse os verbos na forma considerada “culta” ao invés da forma tradicional, digamos, na padaria, iria ser considerada extremamente esnobe ou talvez suspeita de não ser realmente brasileira. Ao mesmo tempo, uma pessoa que se comunica com a linguagem cotidiana num e-mail formal para toda a empresa provavelmente não seria levada a sério.

 

Todos os idiomas tem diferenças entre a linguagem formal e a informal.

Essas diferenças não são, no entanto, tão profundas que justifiquem essa reflexão sobre serem ou não o mesmo dialeto. No português, são diferenças de sintaxe (“me ajude” x “ajude-me”), de pronomes (“eu lhe ligo” ou “eu te ligo” x “eu ligo para você”; “a gente” x “nós”) e de tempo verbal (“eu tinha falado” x “eu falara”). Na maioria dos idiomas, essas diferenças são apenas questões de vocabulário; as pessoas aprendem a gramatica formal indiretamente, sem aulas específicas na escola. Por exemplo, nos Estados Unidos, as aulas de inglês para americanos são focados muito mais em literatura e tem pouquíssimo ênfase em gramática. Quase ninguém é obrigado a fazer testes de inglês formal antes de começar um trabalho. Mesmo assim, a população, no geral, consegue facilmente distinguir entre expressões (ou seja, vocabulário) formal versus as opções informais do idioma. Podemos argumentar o que essas línguas são mais fáceis de serem aprendidas, mas é provável que as dificuldades se apresentarão em outro aspecto do aprendizado.

No final das contas, é essencial lembrar que toda versão do idioma tem seu lugar e momento certo: por isso as pessoas começaram a usá-la! Antes de julgar alguém, é importante se perguntar se a pessoa está falando errado mesmo, ou se estiver apenas usando a versão errada de português para a situação. O português não é, então, a língua mais difícil de ser aprendida. Só precisa ser estudada e compreendida como praticamente dois idiomas. O inglês também não é a língua mais difícil, mas quando surgir a necessidade de publicar algo com fluência nativa, pode procurar a Superior Traduções que traduziremos seu texto com qualidade.