Por que o Hodor se chama Hodor (ou por que você precisa de um tradutor profissional)

por Bianca Anstrell

Se você, como eu, é um fã de Game of Thrones e assistiu o episódio 5 da sexta temporada, você também sofreu ao ver o final trágico de um dos personagens mais queridos da série. Caso não o tenha assistido ainda e não queira ter nada sobre o programa revelado, eu recomendo que você o assista antes de continuar lendo esse post.

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Se você, como eu, assiste aos episódios ouvindo os áudios em inglês, provavelmente não parou para pensar na grande revelação do episódio e que nó ela gerou para os tradutores do programa que preparam o texto para a dublagem.

Uma pequena revisão do acontecido:

O episódio revelou por que o fiel companheiro de Bran, Hodor, só consegue falar essa palavra. Entre viagens no tempo, mortos-vivos gelados e criaturas mágicas da floresta, o resumo da ópera é que o Hodor que Bran encontra no passado está ouvindo o que está acontecendo no presente, que são gritos mandando ele segurar uma porta. No original em inglês, “Hold the door”.

Ok, você ainda está comigo? No passado, o jovem Hodor/Willys sofre influência de Bran, e isso destrói sua mente. Ele está ouvindo os gritos de “Hold the door” e começa a repeti-lo. HOLD THE DOOR, HOLD THE DOOR. Aos poucos, o grito vai ficando mais enrolado, e vai mudando aos poucos. Hol de door. Hol Door. Hodor.

 

Quando assisti ao episódio, fiquei tão feliz em aprender essa história de origem que nem me dei conta do problemão que surgiu para os tradutores de português. Como eles iam explicar a transformação da frase “Segure a porta” na palavra Hodor? Elas não soam parecidas. Na verdade, elas não têm sequer uma única sílaba em comum. A explicação usando o som da frase fica quase impossível!

Traduzir não é somente pegar um punhado de palavras e escrever os significados, uma por uma, em outro idioma. Muitas vezes, existem outros significados escondidos por trás das palavras que se perdem nas traduções literais. Características do som de um idioma muitas vezes somem quando traduzidos para outra língua, assim como sutilezas de significado que podem ser relevantes para o entendimento do texto. Trocadilhos, referências culturais e rimas também se perdem após a tradução, e requerem experiência, tempo e cuidado para serem transferidos para outro idioma.

O tradutor desse episódio precisava mostrar para o público que a frase “Segure a porta” era a origem do nome Hodor, sem usar explicações extra. Os recursos disponíveis pra fazer o público entender eram os mesmos da cena em inglês: a expressão facial dos atores, a repetição da frase, porém sem a semelhanças entre o som das palavras que foi essencial para o entendimento no idioma original.

 

E agora?

Game of Thrones é o show mais popular na televisão mundial hoje em dia, e o show mais pirateado na história. A internet está cheia de vídeos ilegais com legendas feitas não oficiais por falantes de inglês que não necessariamente são tradutores. Como eles fizeram a tradução?

 

Simples. Não fizeram. Na maioria dos vídeos a legenda simplesmente diz “Segure a porta. Segure a porta. Segure. Hodor.”

 

Um espectador esperto talvez até entenda o que aconteceu ouvindo o som em inglês. Mas é o trabalho do tradutor garantir que essas dicas sutis da linguagem estejam presentes no texto traduzido. Como as legendas não são feitas por profissionais, o sentido se perde.

O tradutor de Game of Thrones afirmou, numa entrevista para o G1 (aqui) que demorou duas semanas para pensar num jeito de traduzir o trecho de forma digna ao programa. Após muito tempo, ele transformou o processo de transição “Hold door” em “A por” (de “a porta”), os trechos mais semelhantes das duas frases. Aos poucos, foi modificando o som desse trecho até que ficasse parecido com Hodor.

Nossa opinião? Foi uma solução boa. O significado original da cena, que “segure a porta” se transforma em Hodor em uma mente danificada, foi mantida, sem ajuda de nenhum outro recurso que não a performance do ator e a linguagem do ator de voz.

Se você quiser assistir à cena você mesmo, veja aqui.
(a original em inglês você encontra aqui)

Mas eu não preciso de tradutor, eu falo inglês muito bem

De acordo com diversos especialistas, traduzir é uma qualidade que precisa ser desenvolvida e não está presente em todas as pessoas bilíngues. Tradutores profissionais não só falam os dois idiomas muito bem, mas também precisam dominar ambos os idiomas no mesmo contexto. Ou seja, uma pessoa que fala inglês muito bem no dia a dia muitas vezes não se sai tão bem descrevendo procedimentos médicos complicados, algo que talvez fosse possível, porém difícil, em português. Nesse caso, mesmo sendo fluente no dia a dia, o bilíngue não poderia traduzir textos médicos.

 

Além disso, o conhecimento cultural e contextual dos dois idiomas precisa ser bastante profundo, para não cair em algumas armadilhas como por exemplo, falsos cognatos. Isso exige anos de prática com os dois idiomas, muito além de assistir filmes e séries. Tradutores demoram anos para se qualificar, estudando linguística, sintaxe histórica, teoria da gramática, mesmo após já serem fluentes em ambos os idiomas. Eles passam por todos esses anos de treinamento para que você não precise.

 

Como disse o Professor François Grosjean, autor do artigo no link:

“It takes more than having two hands to be a good pianist. It takes more than knowing two languages to be a goodtranslator or interpreter.” ou “É preciso mais do que duas mãos para ser um bom pianista. É preciso mais do que saber dois idiomas para ser um bom tradutor ou intérprete.”

 

 

Por isso, você já agradeceu a um tradutor hoje?

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